Maria Cecília desperta com o som oco dum objeto contra o tapete. Lenta, encharcada de cansaço, a consciência de Maria despenca da borda do sono para a realidade, brusca e impaciente: a Avó de pé, na frente da estante da TV, pega cada objeto de sobre a estante e atira no chão. Maria se senta no sofá e tem de baixar a cabeça um segundo, para virar os olhos do sol forte; encontra no carpete, virada de lado, sua própria imagem, bebê, aninhada no colo sorridente da Avó, o momento protegido do passar dos anos pela moldura cor-de-rosa cercada de flores brancas.

Busca o celular entre as almofadas. A Avó atira mais um porta-retratos no chão. Ainda bem que nenhum mais tem vidro. Onde foi parar a porra do celular? Fica de pé e o encontra, no chão, entre bibelôs de cerâmica, toalhinhas de crochê, na borda do montinho de terra do único vaso que ela, teimosa, burra, insistiu em deixar ali. Há outros montinhos. Marrons também. Isso não é terra. Eles percorrem uma trilha e aumentam de tamanho. No fim da trilha, a fralda.

Como é que a merda desse celular não despertou?

Cata o celular e pressiona o botãozinho da lateral. A tela permanece preta, irresponsiva. A merda desse celular velho. Atravessa a sala pulando nos buracos limpos de carpete até alcançar o piso da cozinha, pluga o celular no carregador sobre a mesa.

Na sala, a Avó grita que quer ir para casa. Pergunta onde está o Douglas com as roupas. Quer ir para casa, agora.

Avó não desiste de Douglas. Não se passa um dia. Se ele não vivesse em festa... Se não fosse um irresponsável... Um momento desses... É um egoísta. O porquê de ela gostar tanto dele é uma coisa impossível de compreender. No torpor da consciência de Maria Cecília, uma brasa se acende e tenta se espalhar, mas ela fecha os olhos e suga o ar pelo nariz, segura o peito cheio de ar lá no alto, conta baixo um, dois, três, quarto, seis. Solta fazendo barulho. Sorri.

Mantém o sorriso até parar na frente da Avó e apoiar a mão no braço dela. A Avó está nua da cintura para baixo. Suas pernas estão marrons. A blusa amarelo-claro de mangas compridas está manchada de marrom. O cabelo branquinho tem bolotas marrons enodadas. Há tiras marrons no seu rosto. Maria sorri de novo e segura as mãos dela. Olha para baixo: as mãos estão grudentas, sujas até debaixo das unhas. O inferno que vai ser tirar isso. Maria fala. Sua voz é mansa, baixinha, cuidadosa. O Douglas teve de sair. Levou junto as malas no carro, foi sem querer. Mas ele já volta e aí todo mundo vai para casa. Antes, a gente precisa arrumar a sala. Né? Não dá para ir embora e deixar a sala assim.

Avó olha ao redor. Abre um sorrisinho infantil. É que eu fiquei brava. Achei que tinham me esquecido aqui.

Maria pega a cadeira de rodas, estacionada ao lado da cama da Vó, e leva o mais perto que pode, chutando as coisas pelo caminho. Segura Vó pelos dois antebraços e a conduz, passo por passo, às vezes tem de dizer: esse pé, agora o outro, às vezes a Vó congela e cambaleia, rodopia em torno do próprio eixo como um pião perdendo força, e Maria tem de segurar ela um pouco mais firme e aproximar o corpo do dela, às vezes se enroscam em objetos. Põe a Vó sentada na cadeira, empurra até a cozinha, trava as todas, serve um pouco de leite num copo plástico e entrega à Vó.

Pede que a Vó fique sentada enquanto ela arruma a sala, depois elas vão tomar um banho. Pergunta se a Vó entendeu. A Vó toma um gole de leite e olha para o teto.

Maria volta para a sala e identifica, lá embaixo, em algum lugar profundo, escuro e distante dentro de si mesma, uma vontade de ficar triste, que repele dizendo a si mesma, enfática, em voz alta: Não. Corre para a lavanderia pegar um balde com desinfetante, volta correndo para a cozinha para conferir a Vó. Serve outro copo de leite e volta para encher o balde. Enquanto o balde enche, serve outro copo de leite e um pedaço de linguiça. Na lavanderia, não tem mais pano de chão limpo, vai toalha de rosto mesmo.

Tenta multiplicar sua presença de um cômodo a outro, teme que a Vó se levante sozinha e caia, precisa fazer xixi, deve estar com remelas nos olhos, o estômago borbulha, o cérebro grita por café, não sabe que horas são, já serviu para a Vó quatro copos de leite e três pedaços de linguiça - não é a toa que ela ganhou tanto peso -, limpa como dá, guarda como dá, quando resgata a si mesma, bebezinha, de dentro de uma moldura, do carpete imundo, desvia os olhos dos seus olhos e do sorriso, distante no tempo, da Vó.

O celular toca. Vó chama, mais linguiça. O celular toca de novo, o coração dispara, vai que é alguma coisa grave. A sala está satisfatória, vai ficar assim. Respira fundo. Um, dois. Faz uma bola com os lábios, sopra para fora com força. Sorri.

Vai até a Vó, ajoelha na frente dela. Vamos tomar um banho? Vou sozinha. Eu vou com a senhora, também preciso. Não sou nenê, para me darem banho. Num é a senhora que diz que velho vira criança? Não preciso agora. Vamos, vai ser bem rapidinho. Se eu der banho na senhora, vai mais rápido e dá tempo de eu fazer ovo frito. Eu quero ovo frito. Então vamos.

Traz a cadeira de banho e emparelha com a cadeira de rodas. Ergue os pés da cadeira, segura a avó pelos antebraços. É um, é dois, é três… É já, completa Vó, e levanta. Maria ri. Toda vez, nunca falha. Vó dobra as pernas e despenca na cadeira de banho. Ui! Que cadeira gelada, Maria Cecília!

Meu Deus do céu, eu a deixei com frio, sem fralda, pelada, até agora. Lá do fundo, daquele lugar escuro, frio e embolorado, tenta brotar o remorso, que ela repele empurrando a cadeira para o banheiro. Tem de passar na frente e depois puxar a cadeira pelas pernas. Tira a própria roupa primeiro, depois a blusa da Vó. Liga o chuveiro, entra e puxa a cadeira para dentro do box. Tem de pegar um palito de dentes, na gaveta do banheiro, para limpar debaixo das unhas da Vó. Dá banho na Vó e, quando a Vó se distrai com o sabonete no meio das mãos, pega um pouquinho de espuma para si mesma. Desliga o chuveiro, se seca e veste a mesma roupa de antes.

Está quase. Está quase, está quase, Maria Cecília repete em voz alta. Vamos te secar, passar hidratante, vestir, colocar na cama. Assistir uma novela. Aí, vou passar um café pra gente. Vamos, assistir uma novela e tomar um cafezinho? Vó tem um beiço no meio da cara. Maria seca a Vó, enrola num roupão e a empurra de volta até a sala.

Na cozinha, o celular toca. Pega, a caminho da sala, olha para a tela: é a Mãe. Liga todos os dias de manhã, a essa mesma hora, ver como elas estão, faz um café do lado de lá, fingem tomar café juntas pela videochamada, substituta rasa para o momento que tinham antes, quando ela passava aqui todos os dias a caminho do trabalho.

Maria enfia o celular no bolso, entra na sala. Empurra a cadeira bem encostada na cama, tranca as rodinhas, busca hidratante, fralda, calcinha, pijama.

Vamos para a cama, Vó? Tô cansada. Eu sei. Tamo quase. Vamos pra cama e te faço um café. Vamos lá. Segura a Vó pelos antebraços: É um, é dois, é três… Puxa a Vó, que faz um impulso para cima, mas cambaleia para trás. Oscilam, Maria Cecília dá um passo para frente, agarra o tronco da Vó, sustentando-a de pé, Força, Vó! Firma as pernas, Tô cansada, Só mais um pouco! Firma as pernas!, Meu Deus, e agora, ela não firma, só preciso girar, a cama está perto, giro, deixo ela cair para trás, em cima da cama, depois puxo ela pelo cobertor, não consigo girar, tenta agarrar o cós da calça, mas não tem calça.

A Vó, com os braços ao redor do pescoço de Maria, sussurra, surpreendida, Eu vou cair? Não vai, dá um passo para o lado, Vó, e a Vó tenta, ergue um pouco o pé para o lado, é agora, gira o corpo da Vó, vou conseguir, no compasso do pé que se ergueu para o lado, empurra a Vó para a cama e a Vó vai, devagar, encosta com a bunda na beirada da cama, deu certo!, mas desliza para baixo, para baixo, não, ah, não, não para baixo, e Maria tenta empurrá-la para cima, para cima.

Vou cair. Não vai.

Ela vai cair. A Vó desliza e desliza para baixo, Maria desliza e desliza com ela, barreira viva entre a Vó e o chão, deslizam ambas, da borda da cama até o carpete, e Maria puxa o peso do corpo da Vó para cima de si e se joga para trás, e - quando pode pensar outra vez, está pregada no chão da sala, a Vó deitada em cima dela. O coração disparado, aquele pequeno pedaço vivo bem enterrado no meio dela esperneando por atenção.

Desculpa, Vó. Desculpa, desculpa, desculpa. Tá com dor? Não. Desculpa. Tu tá bem? Tá sentindo alguma coisa? Eu caí? Caiu. Desculpa. Abraça a Vó com força. Tenta olhar no rosto dela. Está congelada, como feita de cera.

Maria desliza o corpo um pouco de lado. Tira o celular do bolso. Cinco ligações perdidas da Mãe. Vai ter de ligar para alguém. Alguém vai ter de entrar ali, meu Deus do céu, todos os seres escondidos dentro dela se rebelam, tomam conta do seu corpo, saídos de suas covas, descompassam seu coração, afogam seus pulmões, agitam seus músculos.

Liga de volta para a Mãe, mas ela não atende.

Tenta a tia. A tia resmunga, que não a deixam mais entrar lá há meses e agora que precisam de ajuda, aí pode? E isso é coisa pro SAMU, por que vai que a Vó machucou e precisa ir pro hospital?

Hospital não, Maria Cecília diz em voz alta. Eu tô boa, não preciso de hospital, diz a Vó. Só quero ir pra casa. Não precisa mesmo, Vó. Falei besteira. Desculpa. Nós já vamos, já vamos para casa.

A Vó não pode se desesperar, é só isso que não pode acontecer, ninguém pode se desesperar.

Maria tenta o SAMU. O homem do outro lado faz perguntas, ela responde, só para, depois de tudo, o homem dizer que os carros estão ocupados atendendo emergências, e não tem como interromper para esse tipo de atendimento.

Liga para o pai. Liga para o tio. Liga para o irmão. Ninguém atende. Liga para o outro irmão. Esse atende, uma voz desfeita, incerta, É que eu acabei de acordar. Maria espera um complemento, qualquer coisa, mas ele não diz nada, fica o silêncio, que ela não suporta e desliga.

Sobrou só uma pessoa.

Ele aparece em dez minutos. As calças dependuradas quase no joelho. Fedendo a cigarro. Move-se como se cada passo o eletrocutasse. A voz rouca, quase sumida. Ele para na cozinha, tira do bolso um pedaço de tecido encardido, enrola na boca e no nariz e dá um nó atrás da cabeça. Diz pra Vó: Oi, minha linda! Vamos te pôr na cama?

Eles a erguem do chão, o Douglas erguendo o tronco, Maria segurando as pernas.

Vovó ajeitada na cama, Maria Cecília espera que ele diga Bem feito, ou Eu não te avisei?, mas ele pergunta só se pode abraçar as duas, jura que nem está saindo tanto, há dias que só enfiado em casa trabalhando, que não sente nada, nada mesmo, Maria Cecília faz que sim e, quando ele abraça, de olhos arregalados de surpresa, mas indeciso, a melancolia se espreguiça, pronta para ocupar seu lugar de direito dentro de Maria – ela não deixa, pisca rápido, pega o borrifador com álcool e espirra em tudo. No chão, nos cobertores, na Vovó, nas próprias mãos. Douglas, ante o esguicho, desprega da Vovó, vai embora meneando a cabeça, quieto.

Vou passar nosso café, sorri Maria para Vovó, triunfante.

O ruído seco, estridente, busca Maria Cecília de dentro do sono. A consciência emerge por uma realidade insipiente, tímida, uma luz ainda azul-claro se enfia pelas venezianas. Maria Cecília levanta, lava o rosto, escova os dentes, volta para junto da cama da Vovó. Faz carinho no cabelo branco, quase prateado de brilhoso, dá um beijo na testa. Vovó abre os olhos.

Bom dia, minha princesa.

Bom dia, Vózinha. Vamos trocar a fralda? Depois passo um café pra gente. Troca a fralda de Vózinha e a põe sentada, vai para a cozinha, enche a chaleira, coloca em cima da boca maior do fogão, gira o botão para acender o fogo, a chama azula em torno da boca e, dois segundos depois, some.