“Meu nome não é John Beatles, é John Lennon. Eu não sou os Beatles.
Paul não é os Beatles. George não é os Beatles, Ringo não é os Beatles. Ninguém é os Beatles. Como poderíamos? Quando conheci Paul, eu tinha 16 anos e outra banda. George, antes de se juntar a nós, era um cantor à parte, trabalhando em seu próprio grupo.
Nós acreditamos no mito dos Beatles também. Quando nos encontramos, formamos uma banda em que cada um dava tudo de si. O que tocamos pelos salões e bares de Liverpool e Hamburgo, o que criamos fazendo rock tradicional, nesse início, era fantástico. Ninguém nos superava, em toda a Grã-Bretanha. Por isso, nossos melhores trabalhos nunca foram gravados: nosso forte era a performance.
Acreditamos no rock & roll. É a música que me inspirou a tocar música, não há nada conceitualmente melhor. A matéria-prima do rock é primitiva, não tem bobagens, e isso chega até as pessoas. O rock & roll é real; todo o resto é irreal. O real chega às pessoas, apesar delas mesmas. Reconhecemos isso em toda arte. O que quer que seja a arte, se é simples, é verdadeira. Nossas melhores composições foram as primeiras, como I Want To Hold Your Hand, ou as que escrevemos separados. As pessoas acham que escrevemos tudo juntos, mas se você me der os discos, eu posso dizer quem escreveu cada verso.
Nós acabamos. Acabamos quando Brian, o primeiro empresário, nos vestiu com ternos. A música morreu antes mesmo de realizarmos nossa primeira turnê nacional pelos teatros da Grã-Bretanha. Precisávamos fazer aquilo para nos concretizarmos, e fazíamos, mas o problema era que, nesse processo, nossas arestas eram lapidadas. Tínhamos de reduzir o show em uma ou duas horas, então ele passou a ter vinte minutos, repetidos todas as noites. Depois, eles diziam: “Vocês vão gravar um álbum. Produzam algumas canções”, e nós nos sentávamos para escrever como para cumprir uma tarefa.
A música dos Beatles morreu, os Beatles morreram como músicos. Por isso nunca progredimos: matamos a nós mesmos para chegar ao topo. Esse foi o fim.
Depois que Brian morreu, entramos em colapso. Eu não tinha nenhuma ilusão sobre nossa capacidade de fazer algo que não fosse tocar. Paul assumiu tudo, começou a, supostamente, nos guiar. Mas como ele estava nos guiando se estávamos sempre andando em círculos? Viramos coadjuvantes de Paul. Quando fomos assistir ao Let it Be, nosso último documentário, em São Francisco, fiquei triste. Senti que o filme foi montado por Paul para Paul.
Essa é uma das principais razões para o fim dos Beatles. Mas cada um de nós tinha seus próprios problemas. Eu não percebi a banda acabando, estava imerso em minha própria dor.
Comecei a tomar comprimidos quando me tornei músico, aos 15 anos. São drogas mesmo, drogas piores que a maconha. A única forma de sobreviver em Hamburgo, de tocar 8 horas por noite, era essa – os garçons me davam os comprimidos e a bebida. Bebia até cair no chão.
Quando nos tornamos Os Beatles, todos nós bebíamos e usávamos drogas. Eu sempre usava mais, mais de tudo, provavelmente porque sou o mais louco. Sempre precisei de uma droga para sobreviver. Com Help!, mudamos para a maconha e deixamos de beber. Mas logo depois, em 1964, começou a fase do LSD.
A primeira vez que provei LSD foi numa festa na casa de um amigo de George, um dentista. Estávamos eu, George e nossas esposas; o dono da casa veio até nós e simplesmente colocou LSD em nosso café, sem falar nada. Fiquei chumbado por um ou dois meses.
A segunda vez foi em Los Angeles, numa casa que eu não lembro de quem era, porque estávamos excursionando, cada dia num lugar diferente. Ringo, George e eu tomamos, e depois disso, não conseguíamos mais comer. Eu não conseguia segurar minha comida com as mãos. As pessoas nos serviam, mas nós derrubávamos a comida no chão.
Paul se sentiu de fora. Nós fomos, mesmo, cruéis: “Estamos tomando ácido e você não”. Passou muito tempo até ele decidir tomar; Paul é mais estável. Acho que ele ficou chocado com os efeitos do LSD, Ringo também – talvez eles tenham se arrependido.
A fase do LSD durou anos. Fiz umas mil viagens. Literalmente mil, eu ingeria sempre. Parei porque tive muitas viagens ruins, não aguentava mais. Fiquei algum tempo sem usar, não sei quanto, depois voltei por mais algum tempo, pouco antes de encontrar Yoko. Essa fase, em que voltei a usar, senti que deveria destruir meu ego – foi como se recebesse uma mensagem. Na época, nós quatro fizemos o retiro de meditação transcendental com o Maharishi. Ao longo de dois anos, eu lentamente destruí meu ego: não acreditava mais que era capaz de fazer nada. Sentia que não era nada, era lixo.
Foi Derek, nosso assessor de imprensa, quem me ajudou a sair dessa viagem ruim. Ele apontou para as canções que eu havia escrito: “Você escreveu isso. Você é inteligente, não fique assustado.”
Fiquei com Yoko nesse período. Na semana seguinte, voltei à casa de Derek com ela. Viajamos de novo e ele me fez perceber quem eu era e que estava tudo bem. Comecei a lutar novamente, a acreditar que poderia fazer as coisas que queria, a ultrapassar as dificuldades.
No início de meu relacionamento com Yoko, vivemos tempos difíceis. Sofremos muitas injúrias, principalmente ela. Durante o lançamento de Let it Be, escreveram que ela estava péssima no filme. Tivemos de ficar ali sentados por 60 sessões, com as pessoas mais convencidas e mesquinhas, sendo atormentados e insultados.
Paul disse várias vezes que odiou Yoko no começo, só depois começou a gostar dela. George disse na minha cara que ela tinha má fama em Nova York. Não bati nele, não sei por quê. Ringo foi legal, mas os outros dois nos ofenderam. Não consigo perdoá-los por isso, apesar de não conseguir deixar de amá-los. Nunca os perdoarei.
Yoko e eu consumimos heroína por causa de tudo o que os Beatles, e os outros, estavam nos fazendo. Nunca injetamos. Cheirávamos, quando estávamos sofrendo.
É tarde demais para mim. Estou com Yoko. E nós dois passamos por cima disso. Espero que Yoko e eu formemos um belo casal idoso morando na costa da Irlanda ou algo assim, olhando para o nosso álbum de recortes dessa loucura toda.
O que estamos produzindo agora, juntos, é o que de melhor já produzi na vida.
Pessoas como eu têm consciência da sua, digamos, genialidade, se é que existe algo assim, logo cedo, aos 8, 9 anos.
Eu costumava dizer à minha tia: “Se você jogar fora a droga da minha poesia, vai se arrepender quando eu for famoso.” E ela jogou toda a minha poesia fora. Nunca a perdoei por não ter me tratado como um gênio, ou o que quer que eu fosse, quando eu estava na escola. Para mim, era óbvio – por que não me colocaram numa escola de arte? Por que continuaram me forçando a ser uma droga de um cowboy, como todos eles? Eu era diferente, sempre fui. Por que ninguém me notou?
Alguns professores notaram, encorajaram a ser alguma coisa, desenhar, pintar, a me expressar. Mas na maior parte do tempo, as pessoas tentavam me convencer a ser a droga de um dentista ou professor. Depois, os fãs tentaram me convencer a ser a droga de um Beatle e a crítica tentou convencer-me a ser Paul McCartney.
Mas eu sou John Lennon.”