Os eventos mais transformadores de uma vida acontecem da noite para o dia. Vivi essa sensação duas vezes.
A primeira, quando fui morar na Itália, aos 24 anos. Herdei esse sonho do meu pai: ele foi para lá quando eu tinha 7 anos, atrás de nossos familiares, depois de nutrir o desejo uma vida inteira. Foi um sonho que eu escolhi herdar.
Cheguei em Roma no dia em que o Papa morreu. Desci no aeroporto às nove da noite, tão atordoada que não vi o homem, ligado ao meu curso de italiano e dono da quitinete em que eu moraria, que me esperava para me levar para casa. Passei reto por ele e fui de ônibus.
Só a noite, quando me deitei na cama, veio a sensação. Não foi no vôo, não foi no aeroporto, não foi no ônibus, não foi ao entrar na quitinete. Foi quando encostei a cabeça na cama: parecia que eu tinha viajado para o espaço e despencado ali, e agora estava fora de mim, suspensa numa bolha, flutuando sobre outro planeta. Era tão grande, aquele momento, eu esperei tanto, sonhei desde tão pequena, planejei tantos anos. Enfim, estava ali. E agora?
O medo, a insegurança, mas também a liberdade – não estava acostumada com aquela liberdade. Uma espécie de realização, tudo misturado, a cabeça em transe.
No dia seguinte, eu já tinha aula, precisava pegar ônibus, viver outra vida – que foi minha por dois anos. Da noite para o dia.
Só me senti assim de novo quando fui mãe.
Você vai para a maternidade carregando seu filho na barriga, protegido dentro de você. Do nada – da noite para o dia -, ele sai. E agora? Outra expansão completa da existência.
Lembro da primeira vez em que tentei segurar aquele mundo novo nos meus braços. Encaixei ele no meu peito e envolvi a mão na cabeça dele: com o dedo indicador, eu controlava a respiração do nariz; com os outros dedos, a respiração da boca.
Quando fui para a Itália, criei um sonho sobre o que seria morar lá, e não aconteceu. Na maternidade, criamos um ideal de vida para aquela pessoa – mesmo sabendo que não podemos. Mas não me arrependo.
Os eventos mais transformadores de uma vida são os incontroláveis.
Me conte o momento mais importante da sua vida.
Assim, são dois, tá? Eu comparei, aqui na minha cabeça, as duas sensações, que são bem diferentes. Mas remetem, assim. Vou explicar. O primeiro momento foi quando… Porque eu fiquei dois anos, fui pra Itália, realizar meu sonho de morar lá, quando eu tinha 24 anos. E quando eu cheguei lá, a primeira noite, quando eu dormi lá, foi um negócio que até hoje eu não sei explicar. Não foi no aeroporto, não foi nada. Foi quando eu fui para o quitinete, e eu… E eu deitei a cabeça, assim, na cama, aí sabe quando tu te sente assim, foi uma coisa… Eu me senti numa bolha, sabe? Suspensa, assim, parecia que eu estava num outro mundo. Parecia que eu tinha viajado pro espaço e eu tinha caído ali. Me sentia fora, assim, de mim. Porque pra mim representava, era uma coisa tão grande, aquilo que eu tinha feito. Pra mim, é uma coisa que eu fiquei esperando muito tempo pra isso, né? Desde pequena, eu nutri esse sonho. Então, quando eu fui, quando eu cheguei, fui dormir naquela cama, que não era minha, né? Aquilo lá representou um outro mundo, um outro… Eu acho que foi, mesmo, um outro estágio da minha vida. Eu pulei muitas fases, ali. E aí, no outro dia, eu já tinha aula do curso de italiano, tinha que pegar ônibus, tinha que ir… Então, foi uma coisa assim, da noite para o dia, sabe? Aquela coisa, da noite para o dia, que as coisas acontecem, as coisas maiores coisas acontecem assim. Já tendo planejado há muitos anos, essa viagem, foi uma coisa que até hoje, assim, eu falo, me senti numa bolha, suspensa. Tipo: e agora? Nunca me senti assim. Só me senti assim, parecido com essa sensação, quando eu fui mãe. E foi aí… Como eu posso explicar? Tu vai pra maternidade, tu tá com teu filho na barriga, protegido, aí do nada ele sai, da noite pro dia, de novo, né? Ele sai e tu… E tu tá, e agora? Parecia outro mundo, de novo, sabe? Que se abriu. E aí a primeira noite, eu me lembro muito bem da primeira noite. A primeira noite no hospital, que eu tentei segurar aquele mundo novo, sabe? Porque eu coloquei, nunca me esqueço, coloquei ele no meu peito e eu dormi. E não era permitido, não é permitido, né? Tu dormir com teu filho. Porque pode cair, né? Ninguém me tirou. Eu dormi com ele aqui e aí um dedo, com um dedo eu controlava a respiração do nariz e com o outro da boca, eu acho. Só sei que, assim, eu segurei ele aqui, dormi com ele no meu peito, e aí com o dedo eu controlava a respiração dele, pra ver se tava tudo certo, e foi assim, entendeu? E aí a primeira noite em casa depois do dia, né, depois do parto. Também. Eu não consegui dormir, eu chorei a noite toda, porque eu precisava controlar a respiração dele. É uma coisa muito animal, Paulinha.
Por que controlar a respiração? Qual que era o pensamento em relação à respiração?
Que ele podia morrer. Que ele estava ali naquele mundo, agora, e eu era responsável por aquela vida, entendeu? Antes ele estava dentro de mim, sabe? Depois não estava mais. Então… Foi ruim esse lado, de tentar controlar. Até hoje, né, eu acho que eu tento controlar (risos). Tento controlar essa vida, assim, num sentido de proteger, né? Então tem esse lado, porque tu te sente muito responsável. Mas do outro, tu vê a pessoa crescendo, é maravilhoso. Mas ficou claro, essa coisa da respiração… E eu achei que tem tudo a ver as duas histórias, porque… É a questão do mundo novo pra ti, sabe? A questão, pra mim, é a questão de uma coisa incontrolável, porque quando eu fui pra Itália, eu não podia controlar. Por mais planejado que tenha sido, e a gravidez também foi. Por mais planejado que tivesse sido… Então, os momentos mais importantes, acho que foram esses dois, porque se parecem muito nesse lado de… Foi uma expansão total da minha vida, total, de ir para a Itália, mesmo tendo dado muita coisa errado lá. Muita coisa. Eu tentei criar uma história, todo um sonho, antes de morar lá, e não foi assim, né? Mas eu não me arrependo. E a maternidade também. Tu tenta controlar, tu tenta criar, assim, um ideal, né, de vida, para aquela pessoa. E tu não pode, né? Então, acho que é um pouco assim, são coisas que me marcaram muito, assim, é uma sensação que eu não esqueço.
Por que tu decidiu ir para a Itália naquela época?
Porque eu tinha cidadania, né? E meu pai sempre teve aquele sonho, sempre… Ele foi, ele tinha ido, já, em 1990, e ele foi atrás da família, de todos os familiares que moram na Itália. E eu nutri junto aquele sonho. Falei: ah, quando eu crescer, eu também vou. E aí, foi depois da faculdade, me formei e depois fui pra lá. E aí foi um sonho meio que herdado, sabe? Mas que meus irmãos não herdaram, não tinham nada a ver, mas que eu herdei. Que eu quis herdar, na verdade.
E por que você decidiu ser mãe?
Não sei, Paulinha, eu acho que era uma coisa que eu tinha que fazer, talvez. Não sei. Eu acho que era uma coisa que eu queria fazer, que eu tinha que fazer, de alguma forma. Eu queria uma família, eu sempre quis muito ter uma família, marido, filho, né?
Tu lembra o que passava na tua cabeça, de pensamento, nesse momento que tu chegou na Itália, deitou na cama e sentia na bolha, assim?
Medo. Insegurança. Liberdade, também, né? Porque eu não estava acostumada com aquela liberdade. Anh… É, medo, insegurança e liberdade. Coisas assim. E, tipo, e realização, né? Porque era uma coisa… tudo misturado, né? Tinha a cabeça entrando em um transe, assim. Entrando em uma batalha doida ali. Foi bem… Surreal, aquilo.
Tu chegou na Itália num dia e já começou a rotina no dia seguinte.
Sim. Aham.
Tu lembra que horas tu chegou?
Eu acho que eu cheguei às nove da noite. E eu cheguei no dia que o Papa morreu. Em Roma, eu cheguei em Roma. O Papa morreu no dia que eu cheguei lá. Umas coisas estranhas.
Como tu foi do aeroporto até a quitinete em que tu ficou?
Então, o cara que era o dono daquele quitinete, que era ligado ao curso, né, que eu ia fazer, ele foi me esperar no aeroporto, só pra me levar, só que eu não vi, né, eu não vi ele. Ele ficou me esperando no aeroporto. E eu não vi. Eu tava, imagina, atordoada. Podia ser uma segurança a mais, né? Mas aí fui de transfer. De ônibus, era um ônibus.
Como que era a quitinete, tu lembra?
Lembro tudo. Era sala com a cama, tinha uma paredinha, só, separando, uma parte da parede separando a cama, dois… A cozinha era separada. Bem pequenininha. E o banheiro, o banheiro era grande. E era isso.