Como sou escritora

“Viver é um rasgar-se e remendar-se.”

 (João Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas)

“Pôde transformar-se tanto! Parece possível isto? Tudo parece possível, qualquer coisa pode acontecer com um ser humano.” 

(Nikolai Vassilievitch Gógol – Almas Mortas)

Eu deixei de ser todas as coisas que já fui, ao longo da minha vida; exceto ser escritora. 

A criança inventiva, a adolescente introspectiva, a universitária frágil, a jovem combativa, a adulta curiosa, todas elas, em tantos aspectos diferentes entre si, contraditórias até, difíceis inclusive de reunir na mesma história, quiseram escrever. É assim que me localizo como humana e reconheço em mim o que é universal e o que é único – dentro de mim cabe a história da humanidade toda; e, ainda assim, a minha história é apenas minha, só por mim pode ser contada, e é só através dela que eu existo. Quem fui, quem sou, o que sei dizer do que sou, é o que de mim resulta, o que da minha experiência sobra: que é o que eu escrevo. 

Para mim, a consciência começa quando a primeira linha aparece em meu diário. 

Uma criança que acha escrever a mais poderosa das coisas

Ganhei o caderno aos sete anos. Presente de minha mãe. Ela mesma começou a escrever para mim, quando se viu grávida; e, tão logo notou que eu sabia escrever, colocou-o em minhas mãos. 

O diário já me era um conceito familiar. Vi Bisavó Rosa escrever diários a vida toda. Eu era fascinada por ela e pela possibilidade que ela me apresentava: guardar o tempo. Era isso que Bisa Rosa fazia, guardava pedacinhos de tempo em seus cadernos e, quando queria, resgatava os de sua preferência e me mostrava. Sua letra, torta e corrida sobre as páginas amarelas, era mágica. Dava a ela controle sobre o mais temido dos fenômenos; e, para mim, não havia criatura mais inteligente e poderosa do que ela. 

Eu queria guardar meu tempo também e, por isso, escrevia todos os dias. 

Uma criança que se torna o que lê

Amei os livros muito antes de saber ler. Certo dia perceberam que, em vez de inventar uma história para as figuras do livro, eu estava lendo de verdade. Depois que aprendi, não tinha livro que fosse suficiente. Os que eu ganhava, esgotava no mesmo dia. Quando entrei na escola, acharam que a biblioteca fosse ajudar; mas eu chorava, porque só podia pegar livro novo uma vez por semana. 

Em torno dos nove anos, comecei a folhear os romances que meus pais tinham em casa. O primeiro foi um exemplar antigo de Clarissa. Achei aquilo tão lindo que relia a primeira página sempre que estava triste, e me alegrava imaginando os pessegueiros floridos, a sombra azulada dos morros e o lampejo do rio, longe. 

Esgotados os exemplares disponíveis em casa, passei a rastrear os das casas alheias. Sempre que visitávamos alguém, cumprimentava os anfitriões e saía a procurar. Abria os romances que encontrava e ali permanecia durante as quatro, cinco ou mais horas durante as quais as visitas se estendiam. 

Os livros se tornaram uma extensão de mim mesma – do meu cérebro, da minha consciência do mundo, do meu corpo. 

Uma criança que não quer crescer 

Eu observava os adultos intrigada. Para meu cérebro infantil, com frequência os adultos não faziam sentido. Não compreendia suas ansiedades, irritações e restrições.

Encontrei um modo de organizar dentro de mim estes sentimentos: observava-os escondida, tendo em punho um caderno de anotações. Cada um tinha uma página com seu nome no topo, uma descrição completa de seus atributos físicos, personalidade, principais relações, o que eu sabia da história de vida e o que eu interpretava pelo modo como me tratavam. 

Em dado momento, fiz a mim mesma a promessa de não esquecer como foi ser criança, não esquecer como os adultos pareciam, vistos de baixo. 

Ainda não sabia que mudanças são inevitáveis. Descobriria mais tarde, e a escrita voltaria a cumprir seu papel de organizar o meu mundo em cada uma delas. 

Uma pré-adolescente introspectiva

“É certo que a literatura jamais teria existido se uma boa parte dos seres humanos não fosse inclinada a uma forte introversão, a um descontentamento com o mundo tal como ele é, a um esquecer-se das horas e dos dias fixando o olhar sobre a imobilidade das palavras mudas.” 

(Ítalo Calvino – Seis propostas para o próximo milênio). 

Na quinta série, fui da escola pública para uma particular. 

Não me sentia parte daquele mundo. Não tinha repertório material e comportamental para aquele ambiente. Não usava maquiagem nem tinha chapinha para passar no cabelo. Me faltavam habilidades sociais. Sentia que não era muito gostada. 

O único universo ao qual eu sentia que pertencia era o ficcional. E a escola particular tinha uma coisa que eu nunca tinha visto antes: uma grande biblioteca, onde estavam disponíveis muitos universos. Era um santuário. E não era só o acesso aos livros em si, mas a beleza das prateleiras cheias, o cheiro deles ocupando o ar, a textura das páginas nas pontas dos dedos. Era o meu lugar favorito no mundo, e era lá que eu estava sempre que podia. Tínhamos leituras obrigatórias mensais, e a turma toda ia para a biblioteca retirar exemplares. Eu retirava a leitura obrigatória e alguma outra, a maior que encontrasse, para durar mais. 

Passava quase todo meu tempo acordada lendo, escrevendo ou estudando. Era a favorita dos professores de língua portuguesa e artes. Durante as aulas de que não gostava, pousava um livro aberto sobre as pernas, debaixo da carteira, para ler escondido. Todos os Veríssimos que encontrei ocuparam meu colo, um a um, do pai e do filho. Escolhia um autor e, se gostava, lia todos os livros dele que encontrava. Foi assim também com Jorge Amado e Agatha Christie. 

Em casa, eram longas as horas de escrita e reflexão sobre a vida e as pessoas – por que será que eu me sentia tão esquisita, em que momento aquilo se tornara minha vida? Em algum momento, comecei a procurar a resposta para estas questões nos livros de psicologia. 

Uma vestibulanda promissora

Um esforço de muitas gerações me conferiu um enorme privilégio: fazer o que quisesse. Levava nessa escolha o trabalho braçal de quatro avós e anos de abdicação dos pais. 

O que eu queria fazer era escrever todo o tempo e continuar afundada na leitura de clássicos, que descobrira graças às leituras obrigatórias para o vestibular. O que eu queria era continuar conversando com Jane Austen, Gustave Flaubert, Lima Barreto, Adélia Prado, Cecília Meireles, Clarice Lispector. Quando descobri Clarice senti que estava diante de um abismo. Chorei tanto nas últimas páginas de A Hora da Estrela que a senhora sentada ao meu lado, no ônibus, perguntou se eu precisava de ajuda. Clarice me mobilizava num tanto que eu nunca tinha experimentado, me puxava para umas profundezas assustadoras e maravilhosas. Tentei muitas vezes imitar o jeito dela de escrever, numa tentativa de fazê-la próxima. Era isso que eu queria, tomar um café com Clarice Lispector. 

Porém, tão improvável quanto este café era cursar uma graduação de humanas. E levei ambos os desejos com o mesmo estado de espírito: o dos sonhos que só podem existir na imaginação. 

Tinha para mim que sobreviver era coisa séria, e se fazia trabalhando muito. Arte era entretenimento, não era trabalho. E havia em mim o fascínio, a essa altura bastante cimentado, pelas pessoas. Pensei em psicologia. Mas e se fizesse medicina? Eu tinha boas habilidades manuais, pensava em lidar com gente e operar procedimentos. Parecia o melhor dos mundos.

Prestei vestibular. Passei.  

Uma estudante de medicina sensível demais para suportar

Gil não estava muito interessado em aprender coisas sobre o deltóide. Isso não lhe desvendava o segredo da alma. Por que era que as criaturas sonhavam? Por que odiavam? Por que tinham medo? Apanhara um dia um cérebro, quando estudava o sistema nervoso central. Parecia-lhe impossível que aquela massa cinzenta, sujeita à decomposição, fosse um tão complicado e rico universo. 

(Erico Veríssimo – O Resto é Silêncio)

Sensível demais para ser médica. 

A sensação veio logo nos primeiros dias. Não era verdade, mas não é a verdade que vence, é a convicção. E eu estava convencida disso.

Eu nunca havia presenciado tanto sofrimento. Gente vivendo em condições ambientais inimagináveis. Gente com doenças graves, ou degenerativas, ou as duas coisas. Gente machucada pela vida, sofrida de dores intratáveis. Eu lutava para conter as lágrimas e, chegando em casa, chorava por horas. Saíamos dos atendimentos e discussões de caso e não via a menor sombra de uma comoção. Não se dizia muito sobre emoções. Dizia-se da patologia em curso, prognóstico, tratamento. 

Pesava em mim um clima de intensa competitividade. Eu estava acostumada a ser uma das melhores alunas da turma e, por isso mesmo, me sentir escanteada. Agora era ao avesso; me sentia menosprezada por ser uma aluna mediana. E sentimental demais. Fraca. Imatura?

O único cenário possível de alterar, para mim, era o das notas. Fui tomada de um desespero para provar minha capacidade intelectual, tirar notas altas e dar conta da faculdade. Nessa corrida, abandonei todas as coisas que amava fazer. A leitura que sobrou foi a de livros técnicos, a escrita que restou foi a dos resumos da matéria. A letra ficava pior a cada dia, que escrever agora exigia pressa e causava ansiedade. 

Vivia o que era o sonho de tanta gente e não era feliz. 

Não enxergava o que hoje sei: todo sonho que se concretiza gera um luto. O real e o imaginário nunca se correspondem. Por isso não me perdoava por estar triste. E o imaginário que eu construíra da medicina estava separado da realidade por uma distância tão grande que achei que não fosse capaz de transpor. A um mesmo tempo, não transpor não figurava como uma possibilidade. O intenso antagonismo, para o qual eu não tinha estrutura interna, me levou a um episódio depressivo. Aos vinte anos, pisei no consultório de um terapeuta pela primeira vez. 

O que eu não esperava é que desse episódio depressivo viria tanta coisa boa, tanta profundidade. A paixão que eu já nutria pelo funcionamento do cérebro humano só fez crescer. Gostei muito de fazer terapia, contava os dias para o horário da minha sessão. Queria, para além de entender o que acontecia comigo e o porquê, entender também as outras pessoas e a teoria que embasava as análises. Meu terapeuta indicava leituras, enviava materiais e incentivava meu interesse. 

Também incentivava o retorno aos meus passatempos e a busca por novos. Voltei a escrever e ler, voltei a desenhar, atividade de que gostava na infância. Comecei a meditar. Criei um blog, onde compartilhava minha experiência como estudante de medicina. Algumas centenas de pessoas me acompanharam durante os vários anos em que o mantive. 

Construí uma rede de relacionamentos e trabalhei em construir um espaço, dentro de mim, capaz de comportar o sofrimento alheio. Busquei outras áreas dentro do ambiente universitário; frequentei os eventos do departamento de psicologia, entrei para o coral e fiz amigos no departamento de música. Os amigos das humanas me apresentaram sua forma de existir nesse mundo injusto e desigual sem negá-lo. 

A faculdade de medicina me colocou em contato com o mundo real, mas não me aparelhou de ferramentas, soluções ou propostas para ele. Culpava-se o paciente: não se esforça para melhorar, ficou desse jeito porque não se cuida, não adere ao tratamento. Uma coisa meio paternalista: o paciente tem de fazer o que a gente diz, sem questionar, e se não faz, nós o punimos.

Encarei a realidade dessa injustiça e convivi com ela por onze anos. 

Uma médica que quer fazer diferente

“Quem uma vez esteve diante deste enigma indecifrável da nossa própria natureza fica amedrontado, sentindo que o germe daquilo está depositado em nós e que por qualquer coisa ele nos invade, nos toma, nos esmaga e nos sepulta numa desesperadora compreensão inversa e absurda de nós mesmos, dos outros e do mundo. 

(Lima Barreto – Triste fim de Policarpo Quaresma). 

Queria ter um olhar integral, ser capaz de construir vínculos reais e empáticos, estimular uma busca realista pelo bem-viver. Queria fazer algo por gente em situação de vulnerabilidade. 

Fiz concurso público para ser médica de uma Equipe Consultório na Rua e passei. Essas equipes, existentes em muitas cidades do Brasil, atendem a população em situação de rua in loco, tentando formar ou fortalecer o vínculo delas aos aparelhos do Sistema Único de Saúde e à rede de Assistência Social. 

Eu amava estar no meu trabalho. Provavelmente foi o único do qual gostei, sendo médica. Mas ficava claro, a cada atendimento, que eu queria era conhecer as pessoas, entender qual era a história que contavam de si mesmas, como tinham resultado no que eram no presente; e, quando chegava a parte de diagnosticar e tratar doenças, eu me chateava. Primeiro, porque o conteúdo técnico em si não agradava. Nunca tive prazer em estudar patologias nem farmacologia. Não tinha prazer em fazer diagnósticos patológicos fechados nem em saber o que prescrever. Segundo, porque era alto o nível de frustração. Poucos tratamentos tinham resultado. A não ser que a pessoa tivesse uma fagulha de motivação suficiente para mudar seu contexto (e essa fagulha nunca vinha de mim), nada que eu prescrevesse fazia eles melhorarem por muito tempo. 

Superestimei o poder da minha disposição e subestimei outros poderes, que estavam ali por caminhos outros, diversos aos interesses do público atendido. Jovem obstinada que era, presa ao que considerava o correto, não tinha jogo de cintura e nem capacidade de negociação. Confrontei, o que acabou não sendo bom para mim e não ajudou ninguém. O desgaste me levou a pedir exoneração do meu cargo. 

Decidi procurar um emprego menos demandante enquanto pensava no que fazer a seguir. Em terapia, debatia a dificuldade que tinha em separar os meus desejos reais da satisfação que sentia em satisfazer o outro. Tinha sido levada a fazer coisas a vida toda; e nunca tinha me perguntado qual era o projeto que eu gostaria de construir. 

Uma médica que larga tudo para viajar

Não sabia o que queria e, além da ampla ciência desse não saber, havia a ciência do tempo que alguns processos levam para sedimentar. Resolvi viajar. Trabalharia um ano ou dois, até ter dinheiro suficiente para ficar fora por alguns meses, talvez um ano. Fugir, mesmo, da pressão externa. Criar espaço para que minhas vontades viessem à tona num contexto em que eu pudesse enxergá-las. 

Namorava um redator publicitário, formado em Comunicação Social. Nikolas. Namoro à distância, ele no Rio Grande do Sul, eu em Santa Catarina. Nos conhecemos por escrito, mensagens em rede social. Tínhamos facilidade em nos comunicar. Gostávamos dos mesmos livros. O amor pode nascer por escrito, pode crescer por escrito, mas o mais importante foi que a escrita se revelou sincera, as palavras eram sustentadas pelas ações, e ancorada nelas surgiu uma confiança sólida. 

Ele compartilhava das dúvidas e da necessidade de respiro. Trabalhava desde os dezesseis, mesma idade com a qual entrara na faculdade. 

Fomos morar juntos, casamo-nos. Foram dois anos organizando a viagem, durante os quais os planos maturavam e cresciam. Trabalhávamos muito. Niko fazia freelas para além do horário regular de agência, eu atendia doze horas por dia. Compramos uma camionete, um trailer, vendemos tudo que tínhamos. E partimos para uma volta ao redor América do Sul. 

Uruguai, Argentina, Chile. Eu escrevia todos os dias, alimentando nosso site. Niko não queria escrever, mas revisava meus textos. Dava sugestões, era honesto quando alterações se faziam necessárias. Assimilei os primeiros aprendizados técnicos. Aprendi a deixar os textos dormirem e a usar truques de redação para que as mensagens fossem claras e o conteúdo chamasse a atenção. 

O primeiro mês de viagem serviu para desintoxicar. Ao fim dele, rasgamos o roteiro, impresso numa pastinha, e nos comprometemos a perder a pressa. O segundo, foi aprender a degustar a vida na estrada e as suas inconstâncias. Em nosso terceiro mês de estrada, acampávamos no litoral chileno, em Bahia Inglesa. Víamos o sol se pôr todos os dias. Começávamos a pensar sobre como, esperando sempre uma recompensa no fim do caminho, não escolhíamos trajetos que nos agradassem, e sim destinos que parecessem adequados. Viver dia a dia jamais cansa, a verdade do poeta nos encontrava.

Saímos deste camping e paramos numa praça para usar o wi-fi público. Recebemos um monte de mensagens do irmão mais novo do Niko, com fotos de uma endoscopia digestiva alta. O paciente era o meu Sogro. Vi a massa obstruindo a entrada do estômago e pulei para o laudo: neoplasia de transição gastroesofágica. Em outras palavras: um câncer de estômago. Com metástases em fígado, pulmão e peritônio, descobriríamos depois.

Passamos dois anos planejando uma viagem mundo afora; e o que vivemos de fato foi uma viagem mundo adentro. Cinco dias depois disso, retornamos ao Brasil. Cercados dos mesmos fantasmas de antes, e agora de muitos outros, tão grandes que fizeram os primeiros parecerem insignificantes. 

Uma adulta em contato com os rastros da finitude

Fomos morar em Novo Hamburgo. Nikolas voltou para um antigo emprego, eu fui contratada por uma clínica de Medicina Ocupacional. Guardamos as fotos da viagem num HD que ficou intocado por anos. O diagnóstico tardio jogou a família em contato com uma situação grave de forma brusca. Foram dez meses de tratamento. Os dois últimos, dentro do hospital.

Eu pensava na assimetria: a maior parte da vida das pessoas, em número de horas, dedicava-se ao trabalho, bem como a maior quantidade de energia. Quando elas precisavam receber ao invés de oferecer, não vinha nada daquele lugar. 

Há ilusão e vazio em torno do mito do sucesso profissional.

Depois do falecimento do meu Sogro, veio um grande período de dormência. Levamos dois anos para colocar nossos desejos em pauta outra vez. Voltamos a falar de uma vida na estrada. A intenção não era mais fugir. Era uma vida de menos custos fixos, morando em uma casa sobre rodas, que nos permitisse mais flexibilidade. Isso exigiria uma adaptação de nossas vidas profissionais que não sabíamos ainda como fazer.

Ao fim daquele ano, fui aprovada na residência de Medicina de Família e Comunidade. Entretanto, o episódio do Consultório na Rua se repetiu. Depois de alguns meses de residência, retirei-me. 

Certa noite, meu marido voltou da agência dizendo que não queria mais ser redator, queria ser fotógrafo. Traçamos um plano e ele pediu demissão dois meses depois. Enquanto ele construía um portfolio e se inseria no mercado, eu sustentei a casa. Estava de volta à Medicina Ocupacional, estudando outra vez para residência, pensando agora em psiquiatria; pouco convencida, sem enxergar outro caminho. 

Meu trabalho era seguro, coisa de que precisávamos; mas enfadonho e frustrante. Algumas críticas que já fermentavam em mim se avolumaram. As pessoas adoecem e sofrem porque o modo de funcionar do mundo moderno não é saudável para elas. Mas para que se mantenham as estruturas intactas, é preciso culpar o indivíduo, fazê-lo achar que o problema está nele, e não em como ele é forçado a viver. A medicina não consegue operar de outra forma. Diagnostica indivíduos e os medica, para que sigam trabalhando e vivendo em condições adversas. Como tristeza e dor não tem remédio, quanto mais um ser humano vive, de mais comprimidos precisa. Para, enfim, falecer dentro de um hospital, escondido dos olhos dos demais. A morte mora ali dentro e não se mostra a quem está fora.  

Minha incompatibilidade com a profissão era óbvia e a necessidade de mudança, latente, mas o empurrão para atitudes concretas veio de fora: a pandemia. A clínica em que eu trabalhava fechou, acompanhando a onda de diversas indústrias da região. Eu fazia atendimentos extras em outros lugares, mas aquela era a que sustentava a casa, e agora precisaríamos nos virar sem ela. 

Nikolas conseguiu se estabelecer e em breve cobria os meus rendimentos. Era o que eu precisava para encarar a decisão mais importante — e difícil — minha vida até aqui. 

Uma ex-médica sem coragem para ser escritora

“Baudelaire é mais perigoso do que Marx. Bach é mais perigoso do que Freud. A diferença é sublime e está na inutilidade fundamental de Bach, na aparente utilidade de Freud. Eu estou completamente ao lado da inutilidade.” 

(Marguerite Duras)

Na pandemia, as pessoas começaram a fazer mais compras on-line. Dentre os itens procurados, estavam os objetos de decoração. Eu pintava quadros de anatomia por puro prazer, mas comecei a receber encomendas. Espiei por essa fresta a possibilidade de parar de atender. E de poder trabalhar de qualquer lugar. 

Entretanto, como se larga a medicina? Como se larga uma carreira tão almejada, considerada tão nobre — e isso depois de onze anos de dedicação, seis de faculdade e cinco atuando? Como causar em meus pais e avós esse desgosto? Tinha para mim que largar a medicina seria assinar um atestado de egoísta.

Em terapia, trabalhava as questões que estavam no cerne do meu escolher profissional. Explorava de onde o desespero em ser útil, a culpa, a necessidade de reconhecimento; de como os papéis sociais de uma pessoa extrapolam a profissão; e, o mais radicalmente transformador para mim àquele momento, de como atividades muitas vezes consideradas secundárias são, na verdade, essenciais para a sobrevivência humana. Tão ou mais quanto a medicina — mais, eu vou me arriscar a dizer. Sem arte não se vive, sem arte o Homo sapiens não teria suportado o surgimento da consciência, sem arte nem a medicina teria tido tempo de existir. 

Era a isso que eu queria me dedicar. A realidade da vida é que precisava também ganhar dinheiro, e isso me fazia olhar para a pintura, coisa que eu já conseguia monetizar. Não conseguia aceitar a retribuição da gentileza que meu marido me oferecia: você sustentou a casa quando eu mudei de profissão, vai estudar o tempo que precisar. Teu negócio é a escrita. 

Não se ganha dinheiro escrevendo no Brasil, respondi. E fiquei mastigando a resposta, incapaz de engolir. 

Eu não estava pronta para seguir a trilha do meu desejo.

Uma adulta que descobre quem é, mas não sabe explicar 

“ (…) e foi até a beirinha, bem na beirinha, bateu bastante os pés para ir ainda um tico mais, ainda um pouco mais, dona da massa de água e de tempo, de um tempo que era só agora e que nem chegava a pedir um depois. (…) na volta às ondas, a menina encheu a concha de uma das mãos com água e bebeu um gole de mar, como quem chega ao destino depois de uma travessia. Só assim, finalmente, ela pôde suportar o tamanho da liberdade. Só assim, depois de um deserto.” 

(Cíntia Moscovich – Essa coisa brilhante que é a chuva).

Cancelei o preparatório para a residência e parei de atender.

Os primeiros meses me deixaram tonta. Recebia algumas encomendas de quadros, mas ainda prestava consultorias online em medicina ocupacional. Aceitei um trabalho como redatora em um curso preparatório de residência médica, mas era avaliada mais pelo conteúdo que pela forma. Inscrevi-me em cursos independentes de Artes Visuais. Fiz minha matrícula no Curso de Formação de Escritores. Por ter uma agenda que, em tese, era mais flexível, assumi mais compromissos sociais.

Tentei levar tudo ao mesmo tempo e acabei ainda mais sobrecarregada do que na época em que atendia.

Além disso, havia o conflito. A vergonha. Como explicar para quem estava ao redor, olhando-me de fora, o que acontecia dentro de mim? Como convencê-los da validade daquilo que eu estava fazendo com a minha vida? O conflito me impedia de assumir minha nova posição, enchia-me de dúvidas sobre minha própria sanidade.

No meio disso tudo, minha família viveu episódios dramáticos de saúde. Minha avó materna adoeceu gravemente. Uma das figuras de apego mais importantes da minha vida deixou de ser completamente independente e lúcida e ficou acamada, num intervalo de duas semanas.

Repetia-se em mim a sensação de assimetria: muita vida e energia se vão depositadas em lugares que pouco ou nada devolvem. Com o agravante de, agora, eu me enxergar no corpo frágil da minha avó. Repetindo os passos desse corpo. Mulher é desdobrável. Mas a que custo?

Meu avô materno faleceu meses depois do adoecimento dela. Tivemos muitas conversas sobre finitude, nos dias que antecederam a partida dele.

A morte não é uma adversária, é uma conselheira.

Olhar para quem veio antes de mim me fez enxergar, com nitidez, para onde eu estava indo. Embora houvesse admiração, havia também consciência dos danos. A mulher que se sente culpada por fazer o que quer é um ser compartilhado, múltiplo, uma criatura depositada em nosso íntimo quando nascemos; é preciso ter uma para compreender. Eu compreendia a função que ela tinha, mas precisava deixá-la ir. 

Ao fim daquele ano, resolvi que não renovaria o CRM e abriria mão, em definitivo, de qualquer atividade relacionada à medicina. Decidi que a pintura precisava voltar para o lugar de passatempo.

O ofício da minha vida é a escrita.

Eu sou escritora

“Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende raízes pelos recantos mais profundos da sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Pergunte a si mesmo na hora mais tranquila de sua noite: “Sou mesmo forçado a escrever?”. Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples “sou”, então construa a sua vida de acordo com essa necessidade.” 

(Cartas a um jovem poeta – Rainer Maria Rilke) 

“Mais do que uma maneira de viver, a literatura é uma maneira de morrer, de morrer para si mesmo.” 

(O amante – Marguerite Duras)

Tomei posse do meu próprio tempo. Aquele, que eu queria guardar quando era criança e me foi arrancado conforme crescia. A gente não melhora em tudo conforme envelhece; muita coisa se deixa de saber. Muita coisa boa se deixa de ser. 

Eu tinha, sobre este fato, uma vantagem. Havia sido ensinada a fazer uma coisa mágica, que me dava o poder de acessar o fragmento de tempo que quisesse. Tudo o que eu já fora estava registrado, por escrito. Resgatei, disposta a aprender com as Paulas que existiram em mim. 

Perguntei à minha mãe onde estavam meus diários. Entramos juntas no sótão da casa dos meus pais e reviramos caixas até encontrá-los. Não precisei escavar muito para compreender a profundidade da minha resposta; ela já existia dentro de mim desde os sete anos. 

Sou forçada a escrever. 

A escrita é a correnteza por onde corre a minha energia, o cais que permite que eu me solte e veja o mundo como ele realmente é, sabendo que tenho para onde voltar. 

Concluí o Curso de Formação de Escritores da Metamorfose. Ele tem um perfil abrangente – aprende-se noções e pratica-se cada gênero. Escrever se tornou muito mais complexo desde então. Ler também. O que só torna as duas coisas mais prazeirosas ainda.  

Emendei com a Oficina do Subtexto, de Cíntia Moscovich. É impactante ter uma mulher contemporânea que escreve — e como escreve —, a quem posso olhar, a quem posso ouvir falar. O conteúdo da Oficina me ampliou de ferramentas, os exercícios me soltaram de amarras. Graças à Oficina, explorei as produções de outros grandes contistas, como Sergio Faraco, Amilcar Bettega e Carrascoza. 

Fiz, e ainda faço, cursos e oficinas específicos, para aprofundar meus interesses e refinar meu trabalho. Um deles foi o curso de Revisão Textual, também da Metamorfose. Outra Oficina marcante foi a Escrever no Limite, oferecida pela Casa das Rosas, em que conheci Marguerite Duras e sua escrita vertiginosa.

No início de 2023, recebi a maior validação de minha carreira como escritora até o momento: fui aprovada no processo seletivo da Oficina de Criação Literária da PUC–RS, a Oficina mais antiga e tradicional do Brasil, ministrada pelo renomado prof. Luis Antônio de Assis Brasil. A Oficina, criada para o aprimoramento de escritores, é bastante concorrida e de um nível altíssimo; e foi o maior salto de experiência, conhecimento e reflexão sobre a minha escrita. 

Desde a Oficina, comecei a prestar serviços de leitura crítica, preparação e revisão de texto. É um trabalho que me apaixona, pelo qual nutro uma profunda devoção. Sinto que a cada cliente aprendo, me envolvo e vivo um pouquinho uma vida que não é a minha, o que expande meu olhar e minha percepção de mundo. 

Em 2024, trabalhei pela primeira vez como ghostwriter, ofício pelo qual me deslumbrei. Para qualificar esse serviço, realizei duas formações em ghostwriting: uma com Tânia Carvalho, outra pela Universidade do Livro. Além delas, cursei a Formação em Memória e Histórias de Vida do Museu da Pessoa, a fim de trazer a Tecnologia Social da Memória para o meu trabalho.

Desde que conquistei os primeiros clientes, e por causa das indicações deles, não parei mais de trabalhar.

A escrita de ficção continua no centro da minha vida. Tudo faço pela escrita, cada mínimo aspecto da rotina. Medito para treinar meu cérebro à concentração e à clareza. Leio, leio, leio e leio mais, todos os dias. Escrevo assim que levanto, pela manhã, para não deixar para depois a coisa mais importante do meu dia. Escrevo todos os dias. Caminho pelas ruas com olhos e ouvidos atentos. Ouço com atenção. Tenho bloquinhos e cadernos, vários, em todo canto, e anoto cada ideia que aparece assim que ela nasce. Mantenho o celular desligado e o acesso com restrições de horário, para que não me tire o foco. Cuido de ter momentos de ócio, porque sei que eles são importantes para a maturação da criatividade. Estudo com todo envolvimento emocional e cognitivo. Sigo pintando porque a abstração e o silêncio interno que esta atividade causa em mim me ajuda a organizar as palavras. 

Tenho uma vida nômade porque, além de intelectualmente estimulante, ela me oferece tempo. Meu marido e eu viajamos pela América Latina desde 2023, convivendo com pessoas dos mais diversos perfis e origens. Testemunhar a relação das pessoas com os lugares onde vivem é a maior riqueza da vida que levamos. 

Ainda há, e sempre haverá, muito a aprender, e sou toda feita de ouvidos e vontade. Dedico e seguirei dedicando o melhor de minha capacidade intelectual e afetiva à escrita, e não concebo a vida sem ela. 

Não importa que tudo o mais continue inconstante, não importa quantas Paulas diferentes eu me torne. Não cabe muita estabilidade dentro do corpo humano, que se curva ao tempo segundo a segundo. E tudo bem que seja assim; dá para viver esse contínuo luto sem afundar em melancolia. Penso que se começa por trocar a busca da felicidade idealizada pela busca de uma existência inteira e potente. Uma é impossível, a outra produz significado, significância, significantes. Só é preciso ter ferramentas para essa produção. 

Eu encontrei a minha.